Retrato de Marco – excerto da novela Todos os Amores

Arlequim mascarado

RETRATO DE MARCO *

Bruscamente compreendi que tudo que Marco possuía era o equivalente numa escala monstruosa ao conteúdo dos bolsos do moleque de rua ressentido e sonhador, objetos que recolhera à esmo na calçada, atraído pelo brilho e pelas cores, bugigangas imprestáveis que fora acumulando numa ilusória sensação de posse, como a preencher o saco vazio que recebera de herança quando o pai dissera encha-o, mas depois sumira e não tinha voltado para explicar com quê, para verificar se ele havia conseguido, ou para dizer-lhe largue-o, não é preciso, para libertá-lo, mas não tinha voltado e não voltaria, pensava, sentia o moleque sujo e magoado, tão só com sua condenação, abaixando-se e apanhando outra pedrinha azul.

Aos trinta e quatro anos, Marco possuía, sob os inúmeros disfarces e máscaras de homem mundano, uma casca oca, polida com o verniz fugaz dos modismos. Seus gestos – cobrir-me de flores, o abraço em cruz – naquilo que tinham de falso ou exagerado ou incomum, salvo se estivesse num palco há trinta e quatro anos representando a mesma peça cujo único ator seria ele próprio, um arlequim empenhando-se unicamente em lamber o infinito cu da platéia que, a despeito do empenho, da performance e do brilho, não aplaudia, contudo compulsivamente ele prosseguia representando: como se não soubesse que ninguém dá valor àquilo que recebe de graça, como se ignorasse que a doação indiscriminada de qualquer coisa se não tem destino é porque não teve origem e consequentemente não terá valor, então anulam-se as respostas, a réplica, as palmas, e assim não cria laços porquanto suas pontes irrisórias desaparecem sem deixar vestígio.

O riso de Marco soava como um eco no interior duma catedral ecoando em todos os cantos ao mesmo tempo, funcionando como barreira para impedir a evasão de sentimentos que insidiosamente o atormentavam aos quais ele não sabia dar um nome, embora a linguagem tenha se formado a partir dos gritos primais vindos do fundo das cavernas mas por quantos milênios de sons cavos?

Então persistia o mapa do seu corpo, o arco suave dos lábios cruelmente cinzelados, o exato encaixe da bacia na junção do tórax como a estátua dum jovem Alcibíades no terraço aberto aos sóis e aos ventos, ao céu impiedoso que aturde e não consola aquela que persiste em olhar a luz das estrelas apagadas há milênios.

* Excerto de novela Todos os Amores, do livro Toda Prosa II, de Márcia Denser.


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