Entrevista

 

Blog da Sorbonne – Entrevista com Márcia Denser

– Poderia falar sobre sua criação literária no momento atual? Está trabalhando em algum livro? Contos? Romance? Fica a vontade para se estender o quanto quiser.

M.D.: Resolvi dar um tempo fora da ficção. E isso já faz algum tempo! (com o perdão do péssimo trocadilho!). Está saindo em março, pela Kotter Editorial, meu primeiro livro de não-ficção, DesEstórias – são artigos, ensaios, crônicas, quase-ficções, escritos entre 2005 e 2013, como colunista do site Congresso em Foco. Abordando uma miríade de temas como geopolítica, neoliberalismo, perfis humanos, crítica da cultura, literatura, feminismo, comportamento, tendências, sabem como é: minha pauta era semi-livre, mas eu gostava de me esmerar no texto, não escrevia meramente como quem toca o serviço. Trabalho como jornalista há tipo 40 anos, mas sou péssima na profissão: escrevo devagar e profundo e bem e complicado DEMAIS para o que se exige no ramo. Lembro que quando trabalhei na Folha, anos 80, entrei como repórter, fui rebaixada a redatora, daí copydesk, daí, bem – lamentável.
    Era “promovida” no sentido contrário.

    Então tenho algumas teorias sobre Como Escrever Não-Ficção Quando Se É Ficcionista: o que determinou a emergência dum talento complementar nesta escriba, até então oculto, o do prazer pelo ensaio, pelo artigo, pela reflexão crítica sobre praticamente qualquer coisa. E isto – a capacidade de escrever sobre  qualquer assunto – é algo que vem da ficção.Também mania do intelectual público engajado (essa criatura em extinção) em se meter em assuntos que não são da sua conta. Esta a crítica da direita a nosso respeito – quando argumenta que apenas o especialista pode opinar sobre isto ou aquilo, médicos sobre medicina, engenheiros sobre pontes, etc. – argumento cujo verdadeiro propósito é eliminar o debate público, digamos, “privatizando-o”.

    Voltando: no caso, o desafio era escrever quatro colunas por mês: duas versando sobre política, abordando nossa história recente (ou seja, pelo viés das formas superiores do simples boato politicóide,  tais como a ideologia, a teoria política, a geopolítica, a filosofia, a sociologia, inclusive até – cruz credo! – a semiótica, algo que combina com o escritor que escreve em profundidade, não fica na superfície do fato jornalístico, tal como o pratiquei durante 30 anos), história já tão mutilada pela mídia hegemonica; e duas colunas com pauta livre.

    Duas colunas que poderia escrever com TOTAL liberdade – um privilégio e uma maldição, aliás – algo infinitamente mais difícil do que ser pautado (quem é jornalista que o diga) Porque aí tive que utilizar a técnica aperfeiçoada no laboratório da língua (a ficção) a serviço da não-ficção, algo extremamente complexo pois, como qualquer crítico literário está careca de saber,  a prosa de raiz poética (ou ficcional) envolve o leitor pela emoção (não se presta à reflexão, é o chamado falso discurso lógico) ao passo que a prosa discursiva pega o leitor pela razão.

    Não me perguntem como, mas acabei mixando essas duas prosas (se você me perguntaram quanto às questões processuais da escrita, acho que sua questão foi respondida, não?).

– Quais são as palavras-chaves ou ideias com as quais podemos identificar a sua literatura de hoje? Pq?

M.D.: É uma literatura bricoler – formalmente falando – que faz uma profunda crítica social, mas que também é auto-reflexiva; os críticos da atualidade chamam meu trabalho de auto-ficção (aliás, sou uma das pioneiras da auto-ficção no Brasil), então, rigorosamente auto-ficcional, posto que usa as experiências vivenciais do autor com base, apoio, peça principal e pano de fundo. E não porque escrevo na primeira pessoa, claro. E pratico, cada vez mais, a prosa de raiz poética, tal como foi definida por Júlio Cortázar na “Valise de Cronópio”. Naturalmente que é uma literatura hiper-pop, uma “lixeratura” – que parece ser feita com sucata de cultura. Isso, na minha Erótica – que são os dois livros mais importantes da fase inicial – Tango Fantasma e Diana Caçadora, escritos entre 1977 e 1986, por sinal editados juntos pela Ateliê Editorial em duas tiragens, 2003/2009. Depois, os livros da fase mais madura, Caim e Toda Prosa, escritos entre 1990 e 2008.

– E os seus personagens? Quais são os traços mais presentes no seu trabalho?

M.D.: Na pergunta anterior já se esboçou o que posso dizer agora: na primeira fase – do Tango Fantasma e Diana Caçadora, a Erótica – tudo acontece em torno da minha famosa personagem Diana Marini, que é jovem,tipo 30 anos, amoral, bonita, engraçada, irônica, meio cruel,  curte incrivelmente um “experimentalismo existencial”, por assim dizer – meu primeiro alter-ego.  Se eu tivesse que pensar num equivalente, nos dias atuais, eu diria que é a Hanna Orvatt do seriado Girls da HBO, alter-ego da sua autora Lena Dunham. Só que a minha personagem é uma mulher bonita(Hanna é uma gorducha feiosa) mas também sem grandes vaidades, como Hanna. E menos infantil, mais cínica.

Já nos livros da fase madura (Caim e Toda Prosa) surgiu Júlia Hehl, mais de 40, com as características gerais da Diana, apenas mais refinadas, mais sofridas, mais dosadas – esta já é uma intelectual que vai fundo na reflexão existencial, malgrado seja extremamente pragmática, materialista, sensualista – fundindo, em si, elementos masculino e feminino numa figura intrigante, emblemática.

Um parêntesis: não vejo, na moderníssima literatura brasileira, os autores preocupados em forjar personagens. Ao menos, que eu me lembre. Razão pela qual minha obra se tornou marcante: precisamente pelo fato de tê-los construído.

– Qual personagem ainda não trabalhou e que quer um dia levar para a sua literatura? Pq?

M.D.: Nenhum: tema e personagem e enredo e linguagem se entrelaçam de tal forma na construção duma obra que todos que me surgiram até hoje, surgiram precisamente em função do regime da narrativa, percebe?

– O que querem os seus personagens?

M.D.: Meus personagens são como esfinges: querem que eu os decifre senão me devoram, queridos.

– E sobre o momento atual da literatura do Brasil, o que gostaria de dizer?

M.D.: Atualmente o Brasil está tendo um momento muito rico, literáriamente falando. Em razão da internet,etc.etc. Mas também horrivelmente equivocado. Explico:como não há mais crítica literária no sentido estrito (aquela que era publicada com regularidade nos jornais, suplementos, etc.por elementos qualificados pela Academia), deixou-se ao mercado e a certos grupos das agências de fomento à cultura a valoração literária: quais autores, quais obras. Os prêmios são cartas marcadas: sempre as mesmas pessoas, chega a ser tedioso. Ou seja, não há mais um critério claro que defina o que é e o que não é literáriamente relevante. Vivenciamos uma espécie de caos cultural. Felizmente há uma instância ainda não cooptada pela cultura de mercado:o boca a boca, a tradição entre os escritores: é entre eles que se decide quem é e quem não é relevante.
Em síntese: a teoria do “campo literário”, tal como formulada por Bourdieu, ainda funciona na sociedade brasileira da atualidade.

– Qual literatura atual te interessa? Quais movimentos? Pq?

M.D.: A boa literatura sempre me interessa, mas vocês não devem contar com isto em nossa época. Dau Bastos, escritor e professor da universidade no Rio, me disse que, atualmente segundo pesquisas, há mais romances sendo escritos que leitores em condições de comprá-los e apreciá-los:o que me dizem? Por outro lado, há dois grandes autores publicados a partir de 1990 no Brasil: Marcelo Mirisola – um artista absolutamente genial – e, em segundo lugar, André Sant’Anna.

– O que mais despreza no meio literário? Pq?

M.D.: Oportunismo, em todos os aspectos. E numa cultura de mercado, é o que há, queridos, Estamos perdidos!

– Falta algum tempero à literatura nacional neste momento? Qual? Pq?

M.D.: Falta crítica, pelo amor de Deus. E talento, é claro.  Quando todo mundo é escritor (ou prestes a se tornar), ninguém é escritor, meu bem. É elementar.